O dia amanhecera e a tempestade ainda não havia passado. O Lenhador olhava pra fora, parado ao lado da janela. As ondas na praia estavam agitadas, quase tanto quanto as que o perturbavam por dentro. 

Ja passava das 8 e ele ainda não havia conseguido dormir, os olhos fixos na maçaneta que algumas horas atrás quase o fizera cair em tentação. -Eu não posso fazer isso. Eu não devo.- 

  • Bom dia - A voz de Sereia rompeu o silencio ensurdecedor que ecoava nas paredes da velha cabana.

  • A tempestade ainda não passou - o homem falou num tom grosseiro que combinava com sua personalidade rustica, isso fez Sereia sorrir. - Achei que estava de passagem mas pelo jeito vai se estender. Você precisa ir embora. 

  • Você está me expulsando, Lenhador - O sorrisinho de canto de Sereia o desarmou no mesmo instante.

  • Eu não… não foi isso que eu quis dizer - a voz dele agora mostrava que Sereia estava no controle da situação - É só que você não pode ficar aqui. Eu não sou uma boa companhia. 

  • Você acha que é mais seguro então ir até lá fora nessa chuva do que ficar aqui com você? - O tom sarcástico de Sereia o fez sorrir - Me conta o que faz de você alguém mais perigoso do que uma tempestade. 

O homem andou em direção à Sereia, chegou tão perto que ela pode sentir o cheiro de alcool na sua respiração. Ela sabia o que havia acontecido aquela noite, os peixes descansam em alerta. Continuou imóvel, esperando que o Lenhador tomasse a atitude que tivesse vontade, embora ela soubesse que ele ainda não estava preparado para encarar o espelho que ela era. Ele chegou ainda mais perto, os lábios quase encostando nos dela.

  • Anda, faz o que vc está com vontade de fazer - o halito fresco que saía da boca de Sereia dava ainda mais vontade de beija-la.

  • Você precisa sair daqui - agora o tom é de desespero - por favor - O Lenhador conclui dando um passo para trás. 

  • Eu vou fazer um café pra nós - Sereia sorri, pois sabe que aquela luta não é contra ela, é contra ele mesmo. Vira as costas e segue em direção à cozinha.

Por instantes o homem deseja que ela insista, que ela vire de volta pra ele e o beije. Mas Sereia não o faz, vira as costas e vai. Ele quis segui-la mas também não o fez. Desmoronou na sua velha poltrona e adormeceu, envolvido pelo cheiro de café e o cansaço da noite não dormida. 

Depois de um tempo Sereia voltou a sala, estava completamente nua segurando uma xícara de café. O homem não pôde conter sua vontade de agarra-la, mas logo teve ser desejo frustrado ao perceber que estava completamente amarrado na poltrona.

  • Por que você me amarrou? - ele perguntou quase com um grito. 

  • Ué, não é você que gosta de ficar aprisionado?! - Foi mais uma afirmação do que uma pergunta - Vive preso em coisas que te fazem mal, por que não se prender às suas vontades, não é mesmo?

  • Me solta e sai da minha casa - o tom bravo não escondia a vontade que ele estava de que ela ficasse ali… e de que o mantivesse preso

  • Você não quer que eu saia! - ela retrucou num tom mais suave enquanto se aproximava dele - Você quer que eu fique, quer me tomar nos seus braços, você quer sentir meu gosto, meu cheiro, você quer me sentir por dentro - Ela sussurrava perto do ouvido dele.

A respiração do homem ofegava e Sereia o envolvia cada vez mais. O cheiro dela, a suavidade da pele enquanto ela deslizava as mãos pelos braços dele, o som da respiração da moça que era quase um canto. Faltava o gosto, ele queria sentir o gosto dela…

  • Lenhador - ela sussurrou mais uma vez no ouvido dele - Lenhador… Lenhador

Ele levantou num pulo e viu a moça parada na porta da cozinha com uma xicara na mão usando o vestido com o qual saíra do quarto.

  • Você está bem? - Ela perguntou com um sorriso no rosto - Estava ofegante enquanto dormia. - O tom ingenuo dela tornava aquele jogo instigante - Vamos tomar café.

Os dois estavam sentados um em frente ao outro na mesa de madeira no meio da cozinha. O silêncio era perturbador para o Lenhador, mas não para Sereia. Ela estava acostumada a passar semanas sem ouvir uma única voz. Estava esperando até que ele se sentisse à vontade para falar. Depois de longos minutos ele resolveu falar:

 

  • Me desculpe por mais cedo, passei um pouco do limite na bebida, tive problemas para dormir. 

  • Percebi pelo cheiro, bebeu bastante né? - ela falou dando um gole no café

  • Eu estava com insônia - Ele terminou a frase tentando desviar o olhar, mas era impossivel não olhar para Sereia, ela era linda.

  • Você costuma ter insônia ou estava com medo que eu fosse perigosa? - Sereia riu falando em tom de provocação.

  • Você não oferece um risco maior do que eu. - Ele a encarou nos olhos, mostrando que também podia ser intimidador.

  • Nem se eu invadisse seus sonhos? - Sereia sorriu pegando a xicara dele - Quer mais café?

  • Quero sim. 

O silencio tornou a inundar todo o comodo, mas dessa vez foi quebrado por Sereia. 

 

  • É a sua família naquele porta retratos na sala? O que aconteceu com ela?

  • Você é muito curiosa sabia - O tom dele era calmo, mas firme. Não era um assunto agradável.

  • Você sabia que quando nos ouvimos conseguimos entender melhor o que se passa dentro de nós… é o que dizem - o tom paciente de Sereia transmitia confiança.

A afirmação de Sereia foi seguida de um novo longo silêncio até o homem falar:

  • É a minha família sim. Minha esposa… ex esposa e minha filha. Elas foram embora ha alguns anos, não suportam o peso de estar comigo… Com toda razão - Os olhos dele marejaram.

  • Deve ser um peso mesmo, você é super chato, até eu iria - o tom ironico de Sereia quebrava o clima melancólico que havia se estabelecido. - Você acha que elas nunca mais vão voltar? 

  • Não, elas não vão - ele respondeu secando as lagrimas - Minha ex mulher ja refez a vida dela, está feliz. E minha filha, bom… minha filha hoje chama outro homem de pai e eu não quero tirar isso dela. 

  • E aí você decidiu que deveria destruir o resto da sua vida para se punir. - Essa não era uma pergunta, Sereia estava afirmando.

Depois do café o lenhador foi para o quarto e dormiu o restante do dia.

 

O Lenhador abriu os olhos e olhou pela janela, não sabia quanto tempo havia passado mas savia que ja era noite. Por quanto tempo eu dormi?. Levantou e foi até a sala. Sereia estava sentada na sua poltrona bebendo um chá, a casa tinha um cheiro familiar de comida fresca.

 

  • Oi dorminhoco - ela falou se levantando - compensou a noite passada né. Você deve estar com fome, preparei uma sopa, acho que combina bem com esse tempo frio e chuvoso.

  • Por instantes achei que você tinha sido um sonho. - ele respondeu coçando os olhos.

  • Mas eu sou um sonho - Sereia riu - vamos comer, a comida vai esfriar.

Ha muito tempo o Lenhador não tinha companhia para o jantar. Na verdade, há muito tempo não jantava. Suas noites eram regadas a whisky ou rum, algo forte que o anestesiasse até pegar no sono. O homem estava intrigado com a visita e com a tempestade que não passava, ha mais de 24 horas chovia sem cessar. Os dois jantaram em silencio, apenas envolvidos pelo som da chuva. Quando terminaram, foram para a sala, Sereia acomodada no tapete no chão da sala e o homem confortável (ou não) na sua poltrona. 

  • Você me disse que sua esposa foi embora - Sereia rompeu o silencio - por que ela foi?

  • Eu não gosto de falar desse assunto - o Lenhador falou dando um gole na xícara de chá preparado por Sereia, ele queria ficar sórbio.

  • Eu também não gosto, mas como você não fala nada esse foi o único assunto que consegui pensar - Sereia era atrevida nas respostas - Me conta, quando a chuva passar eu vou embora e talvez você nunca mais me veja, então não será um problema eu conhecer seus segredos.

  • Você venceu - Ele sorriu - não adianta muito resistir né, você é bem abusada - o tom agora era amistoso.

  • Sou toda ouvidos, Lenhador - Sereia falou enquanto deitava de bruços no tapete com as mãos apoiadas no corpo. 

O homem perdeu a concentração por alguns instantes, a visão daquela jovem no tapete de sua sala era completamente erótica. Agora Sereia usava um vestido preto, comprido e justo. Dava para notar que ela não usava nada por baixo. Mas ele não queria pensar nisso e voltou para o assunto:

  • Eu bebia muito, trabalhava muito, passava a maior parte do tempo no escritório. Ela estava cansada disso e nós brigávamos o tempo inteiro - havia muita tristeza e culpa nas palavras dele - ja não estávamos mais vivendo como marido e mulher…

  • E? - Sereia sabia que depois dessa pausa havia algo muito ruim

  • E apareceu a Lisa - agora o sentimento na voz dele foi de alívio - A Lisa não foi meu amor, eu amava minha mulher, mas ela foi meu apoio. Ela oferecia um bom sexo, risadas, momentos leves no chão do escritório. Era meu refúgio - o alívio dava lugar à raiva - mas eu nunca devia ter fugido, deveria ter tentado salvador meu casamento, minha família. 

  • E o que aconteceu com Lisa? - Sereia estava curiosa pelo fim da história.

  • Minha esposa chegou um dia no escritório - ele abaixou os olhos enquanto falava - e nos pegou juntos. É claro que ela não aceitou aquilo, que mulher aceitaria, não é mesmo? Ela pegou algumas roupas colocou no carro e foi embora levando minha filha. 

  • E por que você não foi atrás dela? Por que não se desculpou? - A forma que Sereia falava fazia as coisas parecerem mais fáceis.

  • Eu teria que explicar tudo que aconteceu, teria que pensar a respeito…- uma pausa longa e o Lenhador prosseguiu - As vezes temos tanta vergonha do que fazemos que é melhor não encarar.

  • E agora você vive aqui nessa cabana, como se merecesse a solidão eterna - Sereia sorriu, sarcástica - Bem interessante. Parece um personagem de drama.

  • Você acha que minha vida parece um drama? - Ele perguntou sem se ofender, apenas por curiosidade mesmo. 

  • A vida de todo mundo é - Ela falava num tom sereno - Mas também pode ser romance, comédia, aventura, ação. A nossa vida é grande demais para ficarmos presos a apenas um gênero.

Aquelas últimas palavras de Sereia causaram um incomodo libertador no homem. Ela fazia parecer facíl se livrar de todas as amarras que o prendia, ela falava como se conhecesse a alma dele mais do que ele mesmo. 

Depois da conversa os dois ficaram em silêncio mais uma vez, apenas ouvindo a chuva cair la fora. O Lenhador perdido em pensamentos e a Sereia o observando com um olhar de satisfação, de alguem que sabia exatamente o que estava fazendo com aquele homem. Os olhares dos dois se cruzaram e fixaram-se um no outro, Sereia parecia um imã tentando atraí-lo para perto dela, ainda que ele resistisse. Ela se levantou suavemente e foi andando na direção dele. A cada passo da moça o coração do Lenhador acelerava e ele tentava controlar a respiração ofegante. Sereia apoiou as mãos nos braços da poltrona, o cheiro não era doce como o das flores, nem intenso como o das mulheres que tentam ser lembradas. Era um perfume que chegava devagar, quase tímido, e, quando ele percebia, já havia ocupado todo o ambiente.

Tinha algo de pele aquecida pelo sol depois de um mergulho no mar, misturado ao conforto de lençóis limpos e ao calor de uma noite tranquila. Havia delicadeza, mas também um mistério impossível de explicar. Era um aroma que não convidava à pressa; convidava à permanência.

O Lenhador percebeu que aquele perfume tinha um efeito estranho. Não despertava apenas desejo. Despertava memória. Como se lembrasse de um lugar onde ele nunca estivera, mas para o qual sempre quis voltar. Dentro de si uma batalha invisivel acontecia enquanto coração quase pulava para fora do peito, ele queria se refugiar nela, mas ela não era Lisa. Sereia não era refúgio, era libertação… O Lenhador não sabia, mas estava prestes a se libertar. A poucos centímetros do rosto do homem, ela falou em tom suave:

 

  • Para de resistir, Lenhador. Você ja sabe o que quer - Virou as costas e andou em direção ao quarto sem olhar para trás. Dessa vez deixou a porta aberta. Sem brechas, sem suspenses, mas explicitamente aberta, como quem convida para entrar. O Lenhador fitou o vão entre a sala e o desejo, tentou resistir mas não conseguiu. Caminhou em direção à porta.

 

CONTINUA...