Sereia colocou seus olhos castanhos para fora da água. Sentiu de longe o cheiro de desejo reprimido misturado com dor. Um cheiro denso, masculino… familiar.
Não precisou procurar muito. Lá estava ele, de costas, golpeando um tronco com força. A pele bronzeada refletia o sol, desenhando cada músculo do corpo enquanto o machado descia com violência controlada. Não era só trabalho. Era descarga.
Havia algo nele que a puxava com mais força do que o habitual. Não era apenas o desejo bruto que costumava encontrar nos homens — era o peso.
Um barulho interno… que ela reconhecia, mesmo sem nomear.
Sereia inclinou levemente a cabeça, curiosa.
Silenciar aquilo seria fácil. Mordeu os lábios, observando cada movimento daquele homem que mais parecia uma escultura viva. Sua cauda começou a vibrar, criando ondas que cresceram até chamar a atenção dele.
O Lenhador virou-se. Seus olhos verdes encontraram o mar em agitação. O céu mudava de cor, laranja e cinza se misturando como fogo e tempestade. Era impossível não ficar hipnotizado.
Sereia sorriu dentro da água. Sua cabeça começava a criar o plano pelo qual ela ficaria obcecada até que conseguisse concluir.
Queria sentir aquele homem.
Mas antes… queria enlouquecê-lo.
A tempestade se aproximava cada vez mais e alguns pingos pontuais começavam a cair. Sereia mergulhou de volta para as profundezas do oceano enquanto o lenhador correu para dentro de sua cabana com todas as madeiras que havia conseguido cortar.
O sol ja havia se posto e os primeiros animais noturnos davam sinais. Uma coruja cantava ao longe ornando perfeitamente com o som das ondas agitadas. A tempestade ainda não havia chegado, estava demorando mais do que o esperado.
O homem sentou na velha poltrona ao lado da janela tomando uma bebida forte enquanto observava a vida la fora. A forma como as ondas iam e voltavam numa constante, seguindo um ritmo sincrônico. As ondas não pensavam, apenas faziam o que precisava ser feito.
- Gostaria de ser como as ondas e fazer o que tinha que ser feito. Eu não teria perdido tanto. - O lenhador pensou em voz alta e em seguida deu um gole na bebida. Na parede um porta retrato o fez ficar paralisado olhando fixamente para a foto. Era um homem feliz ao lado de sua família.
O silêncio devastador foi quebrado pelo som da tempestade, que chegara ha alguns minutos sem ser notada pelo lenhador, que se perdia em pensamentos enquanto encarava o passado pendurado na parede. Um som de batidas na porta o trouxe de volta para a realidade.
- Mas quem poderia ser uma hora dessas e no meio dessa chuva? - O pensamento ultrapassou os lábios do homem num tom rústico e até um pouco mau humorado. Era de ser estranhar que alguém batesse na sua porta, pois estava em uma ilha e a casa mais próxima ficava a quilômetros de distância, além do mais os seus “vizinhos” haviam viajado, logo não havia ninguém nas proximidades. Pegou a velha espingarda calibre 12 que ficava em pé ao lado de sua poltrona e foi até a porta, com a arma apontada para quem quer que fosse tirar sua paz.
Quando abriu a porta, ele não encontrou perigo. Encontrou uma mulher molhada, os cabelos negros colados à pele, a blusa branca transparente revelando mais do que escondia, mochila nas costas. Um sorriso leve… mas carregado de intenção.
Ele travou. Ela era hipnotizante.
- Boa noite, senhor. Poderia me tirar um pouco dessa chuva? - As palavras saíram num tom de brincadeira seguidas de uma risadinha enquanto ela ia entrando na casa sem esperar o consentimento do homem. - Você pode me emprestar uma toalha também?
O homem saiu da sala sem falar uma palavra, logo em seguida voltou com uma toalha na mão. Se deparou com a mocinha olhando o porta retrato que ele mesmo olhava há alguns minutos atrás.
- É a sua família? - Sereia perguntou se virando e estendendo a mão para pegar a toalha.
- Desculpa, mas você nem se apresentou, ja foi entrando, o que está acontecendo aqui? Quem é você? - O tom de voz dele era sério mas gentil, um cavalheiro.
- Que mal educada né, me perdoe - Ela respondeu também num tom gentil e muito seguro - Me chamo Sereia. Eu estava no meu stand up quando a tempestade chegou e eu tive que vir para terra firme. A ilha é muito mais perto do que voltar para casa. Vi a claridade dentro da casa e resolvi pedir ajuda. - O tom alegre da moça trazia a sensação de estar vivo.
- Mas você viu uma tempestade se aproximando e mesmo assim tomou a decisão de ir para o mar - era mais uma afirmação do que uma pergunta que o lenhador fazia enquanto se aproximava do aparador de madeira e cobre logo abaixo do porta retrato. Serviu uma dose de um velho whisky que era seu companheiro de todas as noites. - Você bebe? - Perguntou já estendendo a mão e oferecendo o copo para a jovem, que não hesitou em aceitar.
- Na verdade eu já estava há muito tempo no mar, tinha ido longe e me perdi no tempo e nos pensamentos. Às vezes a gente pensa demais e perde o controle né? - Ela falou enquanto dava um gole na bebida e encarava o homem olhando no fundo de seus olhos como se desafiasse sua alma a se mostrar.
Um arrepio subiu pela espinha do homem, ele não pôde deixar de observar os detalhes daquela jovenzinha que chegava a ser algo místico. Ela era reluzente, brilhava. Tinha uma pele morena de sol, e um corpo cheio de curvas muito bem distribuídas ao longo de mais ou menos 1,60 de altura. Os olhos eram de um castanho misterioso e era desafiador encará-los por muito tempo. Os olhos verdes do homem faiscaram encarando aquele corpo pequeno, tentando desvendar os mistérios que aquela mulher trazia. Ele não havia engolido a história do stand up, mas preferiu ficar calado.
- Você mora sozinho nessa cabana? Quer dizer, não tem família? - Sereia perguntou acomodando o copo suavemente sobre uma mesinha redonda ao lado da poltrona enquanto sentava como se já fosse de casa. Ela estava extremamente confortável. Na verdade, sentia-se confortável em qualquer ambiente, era uma mulher bastante segura.
- Eu gosto de morar sozinho - Ele respondeu de forma seca querendo cortar o assunto.
- É? E o que você gosta de fazer aqui sozinho? - Ela perguntou mordendo os lábios - Quer dizer… se eu não estivesse aqui, o que você estaria fazendo?
- Dormindo talvez - ele respondeu desfazendo a cara de bravo e colocando uma expressão suave no rosto. Seus olhos, a princípio de um tom de verde escuro e sombrio, agora davam espaço a um verde iluminado e cristalino que brilhava.
- E agora que eu estou aqui você não quer dormir? - Sereia falava num tom sedutor enquanto se aproximava do homem estendendo a mão para colocar o copo no aparador atrás dele. Ela era baixinha, seus olhos na altura do peito do lenhador o olhavam com uma ingenuidade maliciosa. As respirações ofegantes e entrecortadas se cruzavam no pequeno espaço que separava os dois. Sereia sorriu e se afastou. - Você está sem sono e quer ficar me fazendo companhia ou está com medo que eu roube alguma coisa? - O tom divertido levou um pouco de leveza para o ambiente. Era incrível a capacidade que ela tinha de criar um ambiente tão sensual e de repente voltar a ser a menina ingênua que batera na porta toda molhada de chuva.
- Não sou mal educado, não vou te deixar aqui sozinha - o lenhador respondeu aliviando o ar que estava no peito - além do mais você precisa colocar uma roupa seca. Vou pegar algo para você.
- Não precisa, na minha mochila tem uma roupa - Sereia foi andando em direção à mochila que ela havia deixado no chão ao lado da porta quando chegou - Preciso só de um lugar para me trocar.
- Claro - Ele apontou para uma porta preta do lado oposto à porta de entrada.
Era um quarto com uma decoração rústica, móveis de madeira, lençois de cama preto, um castiçal com espaço para 7 velas na mesinha de cabeceira e logo acima da cama a cabeça de um urso preto com dentes pontudos, exibida como um troféu. O ambiente cheirava à madeira, o que agradava o olfato de Sereia. Sua imaginação vagou por algum tempo perdida naquele cenário quente e melancólico. - Preciso de um banho quente - ela pensou enquanto voltava dos pensamentos, caminhando até uma outra porta ao lado da entrada do quarto.
Na sala o homem fumava um cigarro enquanto tentava entender a mistura de sensações que a presença da moça causara. Tentava imaginar de onde teria surgido um ser tão mistico. Lembrou do olhar dela que parecia penetrá-lo e ler cada linha de sua alma, ela preenchia por instantes um vazio que nem ele próprio entendia, era como se ela o entendesse. Ouviu quando ela ligou o chuveiro e foi impossível não se sentir atraído instantaneamente, olhou para a porta do quarto e reparou que havia uma brecha. - Será que ela que ela deixou de propósito? Será que apenas esqueceu? - Oscilava entre o desejo e a culpa, queria ir até o banheiro e colocar em prática tudo que estava imaginando. Mas ao mesmo tempo não queria trair as memórias que ainda o rasgavam por dentro.
No banheiro, Sereia podia sentir a tensão que vinha do Lenhador. Ela se divertia imaginando a turbulência da mente dele tentando controlar aquele corpo forte. Sabia que era em vão, ele não resistiria a ela, afinal, ninguém resiste. Não demorou muito para Sereia perceber que estava sendo observada. É claro que a brecha no quarto era proposital e agora ela poderia fazer o seu show.
O Lenhador parou em frente à porta do banheiro, que também estava entreaberta deixado escapar a fumaça que envolvia o banho de Sereia. Ele não conseguia vê-la, exceto pela imagem refletida no espelho embaçado. Ela sabia exatamente como manipular as emoções das pessoas e era exatamente esse jogo que estava fazendo.
Embaixo do chuveiro a moça se ensaboava lentamente, acariciando demoradamente e com suavidade cada parte do seu corpo. O homem observava tudo pelo espelho, ofegante e tentando controlar uma ereção que quase rasgava sua calça e que ele tentava conter pressionando com uma das mãos.
Não se sabe quanto tempo passou até que os pensamentos do homem fossem interrompidos pelo ranger do registro do chuveiro sendo fechado. Ele saiu apressado do quarto antes que Sereia o visse - não que ela já não tivesse visto, mas ele não precisava saber disso.
Alguns minutos se passaram até que ela saísse do quarto e o encontrasse na sala, ainda tentando conter a excitação. Sereia sorriu e caminhou em direção à outra poltrona em frente ao lenhador. Ela vestia um vestido branco, transparente o bastante para instigar a imaginação de um homem, mas não o suficiente para mostrar explicitamente o corpo que há até alguns momentos ele desejava devorar ferozmente.
- Banho maravilhoso, estava precisando muito - a garota falou se acomodando na poltrona tão à vontade como se fizesse parte da casa.
O homem continuava em silêncio olhando em direção à tempestade que batia forte na janela. Ouviu a voz de Sereia mas não teve coragem de encará-la. Sabia que ela usava uma roupa sensual, tinha visto pela lateral dos olhos. Mas tinha medo de olhar e enxergar detalhes que o fariam perder o controle.
- Você não gosta muito de conversar né - Ela insistia em puxar assunto. Uma das maiores qualidades de Sereia certamente é a ousadia. Ela persiste até conseguir o que quer.
- Eu não converso muito - o homem respondeu ainda sem olha-la - como você pôde
- ver não tem muitos vizinhos por aqui - desta vez falou virando em direção a ela.
Era ainda mais bonita do que ele havia notado, tinha uma beleza tão profana e ao mesmo tempo tão sagrada, ele desejava mas sentia medo de tocar. Sereia parecia um anjo e também o próprio diabo de vestido. Não era dificil um homem se perder no corpo de uma mulher como essa.
- Por que você está me olhando assim? - Ela perguntou sorrindo, notando que o homem a fitava com certa curiosidade
- Talvez seja porque não é comum ver uma mulher deitada na minha poltrona… ainda mais uma mulher como você - ele a olhou nos olhos enquanto falava, um olhar intimidador.
- Uma mulher como eu, como? - Sereia perguntou com um ar de quem ja sabia a resposta, mas queria ouvir da boca dele.
- Não sei, misteriosa? - Ele sorriu, mas logo retomou a expressão séria, como se não merecesse sorrir. Sereia sabia exatamente o que se passava no coração dele. O homem voltou a falar, agora em tom mais sério. - É um pouco estranho tudo isso. Aqui não aparece ninguem ha meses, e de repente aparece você no meio de uma tempestade me dizendo que estava no mar. Eu não sei o que pensar.
Sereia sorriu e prolongou um silêncio sedutor antes de começar a falar:
- O mar costuma trazer aquilo que a gente passa anos tentando esquecer , Lenhador - ela ia se levantando enquanto falava - Às vezes a gente acha uma coisa, mas na verdade é outra. Às vezes o nosso corpo deseja uma coisa, mas nossa mente insiste em resistir… - ela se aproximava dele, a voz quase um sussurro - assim como você está fazendo agora, resistindo. - Um sorriso malicioso encerrou a frase de Sereia, que já estava parada na frente do homem com ar de menina sapeca.
Ele se sentiu intimidado e instigado. Levantou-se em frente à moça, seu corpo grande a poucos centímetros do corpo fragil dela, poderia beijá-la quando quisesse, poderia agarrá-la e matar seu desejo. Olhou-a fixamente nos olhos, que pareciam um oceano de tão profundos. As respirações ofegantes se cruzavam no ar tão denso que quase podia ser tocado. Sereia se aproximou ainda mais tornando inexistente a distancia entre os dois. O homem estava imóvel, paralisado pela atmosfera mística que a forasteira havia trazido junto ela e à tempestade que caía do lado de fora da cabana.
- Boa noite, Lenhador. - Ela deu um beijo no rosto dele e virou de costas, andando em direção ao quarto. - Obrigada por me deixar dormir aqui - Sereia concluiu já na porta do quarto.
O Lenhador desabou na poltrona outra vez, retomando a respiração, que ficou travada na garganta enquanto Sereia caminhava para o quarto. Pensou por longos minutos e se deu conta de que não conseguiria dormir, não sem provar o sabor daquela mulher misteriosa.
Levantou-se outra vez...
E caminhou em direção à porta do quarto.
CONTINUA...
