Ficou parado na porta enquanto tentava entender a mistura de sensações que a presença da moça causara.

Ainda podia voltar.

Mas não voltou.

Ele ouvia a voz de Sereia ecoando dentro de sua cabeça. Uma voz firme e rouca, voz de ressaca de praia. 

Imaginou como seria ter aquela mulher em seus braços… Sentiu-se ofegante, estava excitado e não podia esconder, o volume em sua calça denunciava. 

 

  • Você não vai entrar? - O sussurro ensurdecedor de Sereia fez o homem ofegar ainda mais. O corpo entrou antes que a razão pudesse impedi-lo .



O perfume de Sereia inundava o quarto... era um cheiro indecifrável, doce, sensual mas que lembrava a leveza do mar. Ela era toda mar. Talvez fosse mesmo uma sereia. Ele sorriu da imagem de uma sereia em sua casa.

O quarto já não parecia o que ele dormia sozinho há duas noites, agora havia algo diferente ali.Uma presença feminina que parecia ocupar mais espaço do que o próprio quarto.

Sereia estava deitada sobre a cama.

A luz amarela do abajur desenhava o contorno do seu corpo.

Por um instante, ele esqueceu até de respirar.

Só então percebeu que ela estava completamente nua.

 

  • Entra, pode vir sem medo - Sereia parecia tão segura, mas ao mesmo tempo despertava medo. Ela era como o oceano, lindo de observar e imaginar, mas assustador na sua profundidade. - Abriu as pernas como se fizesse um convite. O Lenhador não hesitou, agiu como um animal no seu instinto mais primitivo. Era o que Sereia queria, sua metade peixe desejava conhecer a personalidade mais animalesca do outro.

 

Uma luz branca tomou conta do quarto, por um instante, o quarto desapareceu.Uma luz tão forte quanto o farol para onde costumava fugir. De repente o farol estava lá, um menino parado à sua frente observando a luz que direcionava as embarcações. O Lenhador assistia à cena de cima. Reconheceu imediatamente o menino parado diante do farol. Era ele. Lembrou daquele dia em especial, olhando para o farol e tentando imaginar como seria ser guiado pela luz para longe de tudo aquilo. Há poucos minutos aquele menininho havia visto a mãe apanhar do pai alcoolatra depois de descobrir uma traição dele. O menino não pôde ajudar a mãe. 

 

As mãos de Sereia no seu pescoço o mantinham preso ao presente, enquanto a memória insistia em arrastá-lo para o passado . Ela sabia quantos sentimentos aquele momento carregava e continuou conduzindo. 

 

O Lenhador compreendeu quantas culpas aquele menino carregava, e num abraço genuíno o acolheu.

 

 Não foi culpa sua. 

 

O menino sorriu pela primeira vez. Lentamente...começou a desaparecer dentro da própria luz e a cena do velho farol dava lugar ao quarto bagunçado com cheiro de alcool e cigarro. Um adolescente deitado no chão em meio ao vômito segurando um violão quebrado ornava com o caos que predominava no ambiente. Do lado de fora muitos gritos e som de coisas quebrando. O Lenhador se ajoelhou ao lado do jovem e começou a chorar desesperadamente. 

 

O abraço de Sereia apertou um pouco mais. O quarto voltou a existir. O cheiro do cigarro deu espaço ao cheiro do mar.

O Lenhador sentou ao lado do rapaz, e fez carinho nos seus cabelos. Um carinho que ele nunca havia recebido até então. Inundou-se de compaixão, fechou os olhos e partiu dali para o dia do seu casamento.

 

Estava tudo perfeito. A igreja cheia. A mulher mais bonita que ele já conhecera caminhava em sua direção. E, ainda assim... ele não a amava. Não porque ela não fosse suficiente, mas porque ele nunca aprendera a amar.

As cenas dos 12 anos de união passaram na sua cabeça como um filme, todas as vezes que ela tentou oferecer carinho e ele permaneceu imóvel, as vezes que tentou ama-lo em vão. Todas as vezes que ele acreditou precisar de outras mulheres para preencher um vazio que nem sabia existir. O homem se deu conta de que seu fracasso se devia inteiramente às coisas que ele escolheu não olha e, até mesmo tentar apagar de sua memória. O rosto de Lisa apareceu, triste como da última vez que o vira.

 

Mais uma mulher que eu machuquei. 

 

Sereia sentiu o coração do Lenhador acelerar, enquanto ele uivava numa mistura de dor e prazer que a nutria. 

 

Lisa não merecia ter sido machucada. Ela tentou oferecer amor e, dessa vez… ele também amou. Mas como não sabia amar, se assustou e fugiu.

O último rosto desapareceu como névoa ao amanhecer.

Quando abriu os olhos, encontrou novamente o mar.

Sereia continuava ali.

Agora o homem estava deitado e Sereia encaixada sobre ele, fazendo movimentos suaves com o quadril. Ele observou os gemidos dela, tão hipnotizantes quanto o canto de uma Sereia. O Lenhador fechou os olhos e apenas apreciou as sensações. 

Um gemido mais alto e o corpo dele todo estremeceu.

Todos os personagens de suas lembranças se dissiparam como uma névoa, levando com eles dores e culpas.

 

Os dois enfraqueceram juntos. O Lenhador esticou o braço para que Sereia se deitasse. Ela não hesitou, deitou no bíceps forte em posição fetal de costas para o homem e foi se acomodando no abraço de urso que ele deu nela. Os dois sentiam-se confortáveis em estar ali aconchegados um no outro. Fazia tempo que o Lenhador não se sentia protegendo alguém, uma mulher. Adormeceu ali, no conforto que ele quase podia chamar de lar. 

 

Pela manhã quando acordou, estava sozinho. Não havia nenhum vestígio da presença de Sereia, exceto pelo cheiro exótico de mar doce e suave que exalou a noite inteira da moça. A casa estava iluminada pelo sol alaranjado típico de uma manhã pós tempestade, ainda tinha uma sensação de aconchego e paz. O lenhador fechou os olhos, respirou fundo, relembrou alguns momentos da noite anterior e sorriu. Depois de uns minutos deitado conseguiu se levantar e ir até a janela, o sol brilhava forte e uma névoa cintilante cobria todo o mar, era místico e misterioso, assim como havia sido a presença de Sereia. Ele ficou um pouco confuso, sem saber se aquilo tudo havia sido um sonho ou se realmente acontecera, mas de uma coisa ele tinha certeza, sentia uma vontade de viver como há muito tempo não sentia. Foi até a cozinha e preparou um café amargo para encarar as decisões que deveria tomar naquele dia. Deu um sorriso tímido e se encheu de coragem. - Adeus antigo eu!

 

Sereia voltou uma semana depois e se deparou com uma casa vazia, como se o Lenhador tivesse ido às pressas, deixando quase tudo para trás e levando apenas o necessário. -Para sua nova vida, é o suficiente para recomeçar - o pensamento de Sereia saiu em voz alta -Missão cumprida - Ela imaginou que ele teria voltado para a cidade reconstruir uma família da qual ele sentia-se culpado por ter destruído. Sereia sorriu e se virou, indo em direção ao mar e mergulhando de volta para a profundeza dos oceanos, onde nada solitária por toda a eternidade.